"DECIFRA-ME OU TE DEVORO"

"...SIMPLESMENTE UMA METRALHADORA VERBAL..."

"DECIFRA-ME OU TE DEVORO"

"...SIMPLESMENTE UMA METRALHADORA VERBAL..."
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Terra Blog

Arquivo de: Outubro 2007

30.10.07

Post 12

“Me lembro do tempo que podia entrar na sua casa quando queria
Que ali era meu refúgio, minha morada, minha alegria
Me lembro da sua janela aberta, que hoje eu vejo e sei que está só
Me lembro de encostar nela e fumando meu cigarro, sentir seus olhos me observarem sem medo, sem dó
Me lembro das suas palavras e da fé que eu depositava nelas
Me lembro dos seus beijos , do seu cheiro, das suas manias e caras que me deixavam de sentinela
Me lembro do EU GOSTO DE VOCÊ...
Palavras que sei que mais cedo ou mais tarde conseguirei esquecer
Me lembro do cheiro do seu quarto
Da cama que eu me deitava pra ficar a seu lado
E que dali não queria mais sair
Me lembro do seu primeiro convite proposital
E da timidez de aceitar, parecendo natural
Me lembro de cada música que ouvimos juntos
De cada minuto que esquecíamos o mundo
De cada coisa que achávamos absurdo
E me lembro de ver chegar o seu silêncio profundo
Me lembro de lhe perguntar se eu devia me resguardar
Se eu devia me conter pra não lhe amar
E de você dizer: NÃO ESQUENTA, DEIXA ROLAR...
Me lembro da sua proposta
Aquela exagerada, como você mesmo gosta
Me perguntando se me mordia ou matava
E eu dizia que podia fazer o que quisesse, podia deixar sua marca
Me lembro de quantas vezes me entregou a chave da sua porta
Eu acreditando que não era pra eu ir embora
E levava na brincadeira
Sem maldade, sem manha faceira
Me lembro de tudo o que aprendi
Me lembro até do que eu esqueci
Me lembro de quando dizia que estava na hora de ir embora
E de você dizer que era a pior hora
E me lembro também da forma que terminou e me feriu
Mas realmente não me lembro, se tudo isso foi imaginação ou se realmente existiu...”

by WILTON RIBEIRO

08.10.07

Post 11

"Descobri da maneira mais difícil
Que sempre estive sozinho
Minha cabeça sobe às nuvens como um míssil
Explodindo de dor nessa falta dilacerante de carinho

Caio por terra implorando a piedade da morte que sempre me diz não
E as lágrimas rolam como se fossem infinitas
Não ouço minha voz nem sinto meu coração
E desisto de compreender a finalidade banal do que seria a vida

Fico esperando o cometa passar
Pra que eu possa voar com ele ou me queimar em seu fogo
Mas de onde estou não consigo enxergar
É mais escuro ainda o fundo do meu poço

E as fábulas de final feliz não foram escritas para mim
Nunca senti a felicidade completa rondando o meu ser
Procuro incessantemente o meu fim
Ou simplesmente uma forma irrevogável de me perder

Onde está Deus quando oro?
Onde está os amigos quando eu caio?
Onde está a resposta quando eu imploro?
Onde está a luz do dia, quando abro a porta e saio?

Cansado, não enxergo solução
Calado, não consigo compreensão
Afogado, me entrego em suas mãos
Arrependido, me sinto jogado no chão

Não vou viver nem mais um dia
Não vou me explicar como um bandido
Não tenho a vida que eu queria
E já me cansei de tudo isso

Vou fechar a janela
Trancar a porta
Aceitar minhas seqüelas
E fazer parte dessa paisagem morta

Não chores por mim quando eu me fôr
Não seria pior que estar aqui
Não lamente o que podia ter sido, por favor
E lembre-se que apenas não resisti

Deixo meu baú de saudades e neuras
De amizades que não posso concluir se foram verdadeiras
Deixo meu corpo pra ser lembrado
E sigo rumo a algo que mais uma vez será um pecado

O julgamento foi feito e eu compreendo
Vou aprender a deixar tudo voar com o vento
Vou passar por este fio de navalha que me corta
E talvez um dia a gente se encontre novamente, do outro lado dessa porta!"

by WILTON RIBEIRO

Post 10

"Estou cansado de ser vilipendiado, incompreendido e descartado
Quem diz que me entende nunca quis saber
Aquele menino foi internado numa clínica
Dizem que por falta de atenção dos amigos, das lembranças
Dos sonhos que se configuram tristes e inertes
Como uma ampulheta imóvel, não se mexe, não se move, não trabalha.
E Clarisse está trancada no banheiro
E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete
Deitada no canto, seus tornozelos sangram
E a dor é menor do que parece
Quando ela se corta ela se esquece
Que é impossível ter da vida calma e força
Viver em dor, o que ninguém entende
Tentar ser forte a todo e cada amanhecer.
Uma de suas amigas já se foi
Quando mais uma ocorrência policial
Ninguém entende, não me olhe assim
Com este semblante de bom-samaritano
Cumprindo o seu dever, como se fosse doente
Como se toda essa dor fosse diferente, ou inexistente
Nada existe pra mim, não tente
Você não sabe e não entende
E quando os antidepressivos e os calmantes não fazem mais efeito
Clarisse sabe que a loucura está presente
E sente a essência estranha do que é a morte
Mas esse vazio ela conhece muito bem
De quando em quando é um novo tratamento
Mas o mundo continua sempre o mesmo
O medo de voltar pra casa à noite
Os homens que se esfregam nojentos
No caminho de ida e volta da escola
A falta de esperança e o tormento
De saber que nada é justo e pouco é certo
E que estamos destruindo o futuro
E que a maldade anda sempre aqui por perto
A violência e a injustiça que existe
Contra todas as meninas e mulheres
Um mundo onde a verdade é o avesso
E a alegria já não tem mais endereço
Clarisse está trancada no seu quarto
Com seus discos e seus livros, seu cansaço
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
E esperam que eu cante como antes
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
Mas um dia eu consigo existir e vou voar pelo caminho mais bonito
Clarisse só tem 14 anos... "

by RENATO RUSSO